segunda-feira, 20 de outubro de 2014

PARIS...1966...

Einstein não simpatizava com os filósofos...

Porque, como dizia, tudo deve ser o mais simples possível, mas não mais simples.

E não vale a pena criar enredos à volta das leis da Física. Porque são leis da Física, demonstradíssimas! Ponto final.

Isto para afirmar que as memórias não nos destroem nada...como avisam alguns filósofos...

Já contei aqui o que foi o meu ano de 1966: bem casadinho, dois filhotes já a andar, curso de Economia acabado, recrutado obrigatoriamente pelo Exército para o curso de capitães; objetivo render capitães do quadro permanente na guerra do Ultramar.

Como qualquer luso, o proibido não me repugna quando limitam os meus direitos básicos. O Rui ainda hoje me chama de insurreto...


E foi assim:

Em 1967 para se sair de Portugal era preciso uma licença militar, isto no masculino.

Que ninguém ma passava, claro, estava nomeado para Moçambique.

O meu batalhão aguardou o embarque em Portalegre - bifinhos no Tarro - já lá foram?

Vi que o quartel do Batalhão de Caçadores (Infantaria) de Portalegre, onde estávamos, como praça militar de fronteira, passava facilmente licenças de poucos dias para os militares poderem ir ver las chicas...las chicas...las chicas... ("doido compulsivo...")

Consegui uma destas licenças.

A 7 dias do embarque no Niassa, meti-me no carocha, passaporte em dia mais licença militar, deixaram-me sair para Espanha.

Só que continuei até Paris.

Pela terceira vez no quartier latin...hotel, sair para jantar, sentar na borda do passeio, junto a dezenas de jovens, muitos hipis...o conforto duma FN no bolso..., olhos quase fixos na Notre Dame, em frente...A nossa civilização...

Que emoção...

No dia seguinte, metro, até à sede da OCDE.

Concierge, escada alcatifada, circular, 1º andar. Muitos quadros nas paredes, pinturas originais dos maiores pintores de sempre -.pareceu-me...Veio um funcionário engravatado, muito alinhado, convidar-me para esperar numa sala, que havia muitas hipóteses, porque economista, de obter lá emprego.

Saiu.

E eu saí também a seguir. Metro, pagar o hotel, meter-me no carocha e aí vai ele...embarcar no Niassa...

NÃO CONSEGUI FUGIR...



sexta-feira, 10 de outubro de 2014

NEGOMANO - 1ª SITUAÇÃO

Primeira situação em Negomano.

Ao fim de 2 dias de sobreposição, a companhia de caçadores (Infantaria) que fomos render partiu para Mueda.

O comandante da companhia - capitão miliciano (como eu) - já tinha partido de avião. Levaram a nossa Berlier (rebenta-minas) e todos os Unimogs. 

Ficámos sós na 1ª fieira de arame farpado...nós, a Companhia de Cavalaria 1730...

Uma certa emoção...para todos nós...166 checa-checas (maçaricos em Angola)...

Ao fim dumas 3 horas de terem partido ouviu-se uma rajada de G3 duma sentinela dum dos nossos postos.

Era o sinal de alarme. O pessoal dos postos da frente saltou e instalou-se na vala: 2 bazucas e 3 morteiros 60 preparados. Depois mais todo o pelotão de piquete também instalado.

Muitas armas apontadas para a nuvem que se aproximava.

Belo binóculo, afinal era um jipe português que se aproximava a uns dois Kms. de distância.

Chegaram, bem armados, a coluna tinha tido um acidente muito grave.

Já tinha calculado que tinha havido problema com a coluna de caçadores que partira. Como tinham levado a berlier e os unimogues só tínhamos o meu jipe e o jipão do administrador de posto (Dr. Diamantino, beirão). Instalámos dois atrelados. O pelotão de piquete queria todo embarcar. Tive que excluir muitos, aos gritos. O administrador de posto, português valente como todos os outros, espingarda de repetição de caça grossa, foi um dos primeiros a saltar para o volante do seu jipão. Conduzi o jipe militar.

Ponte tosca de madeira partida a cerca de uma hora e meia de distância. Unimogue todo partido em baixo no ribeiro. Várias baixas, estado lastimoso. Trouxemos todos, ao colo... Todos cheios de sangue...vivos ou não...Até eu ao volante, cheio de sangue...E não só...Horror...

A Companhia de Caçadores continuou para Mueda. Iam dormir no mato e partir ao amanhecer.

Os nossos dois jipes e atrelados gemeram com o peso do pessoal, mas chegámos a Negomano.

Helicóptero e dornier (avião monomotor) de Mueda já tinham chegado a Negomano. Carregados, levantaram bem para o hospital militar de Mueda. Cirurgião chefe de Mueda, Dr. Manuel de Jesus (capitão) - perdoe-me ferir a sua modéstia - extremamente competente, era um "Deus" para o pessoal.

Os que tinham hipótese de se salvarem não morreriam...

Mas nunca soubemos mais nada...Foi sempre assim, nunca sabíamos mais nada...