quinta-feira, 25 de setembro de 2014

AVIÃO...AVIÃO...GRITAVA O PESSOAL...


Era a loucura no aquartelamento...

Sem ninguém dar ordem, os trinta e tal militares do pelotão de piquete desatava em grande correria para a pista de aviação. Para fazerem a segurança na aterragem.

Porque estávamos isolados e chegava contacto do resto do planeta.
E traziam o correio!

Um militar do SPM (Serviço Postal Militar) saía do avião e começava a distribuição de cartas, embalagens...incluindo chocolates...derretidos...A temperatura média em Negomano andaria pelos 40-42...

Vinham também visitas...Umas desejáveis - do alferes capelão de Mueda, o Padre João (que é feito de si, Padre João?) e outros e algumas pouco sociáveis - os homens da PIDE. Estes dirigiam-se imediatamente para a casa colonial onde residia o administrador de posto e família. Iam saber se eu me estava a portar bem...

Para terminar, um pouco de como funcionava a Companhia de Cavalaria 1730, a nossa companhia.

Era composta por 166 homens. Todos destemidos. Os menos destemidos também eram destemidos...por simpatia. Simpatia no sentido da simpatia dos explosivos...um explosivo faz explodir os explosivos próximos...

Os 166 homens estavam divididos em 5 pelotões ( trinta e tal homens cada): 4 operacionais, comandados cada um por um alferes e um pelotão de serviços, comandado pelo 1º sargento da companhia, que por acaso era um 2º sargento...já falecido, RIP.

Todos os dias estava um pelotão de guarda ao aquartelamento e um pelotão de piquete. Um ou dois pelotões andavam sempre por fora em patrulha.

Aliás estávamos sempre de piquete: andávamos sempre de G3 na mão e cinturão à cintura com 4 carregadores. Encostávamos a G3 à mesa onde comíamos e à cama, quando dormíamos...na cama. Eu tinha direito ainda a uma Walther de 9 mm.

O pessoal tornou-se exímio no tiro com a G3. Atirando a latinhas de cerveja colocadas ao longe no arame farpado. Ninguém falhava um tiro...

Depois, nos relatórios, eu exagerava as balas gastas nas operações...


Lembro-me do alferes médico da companhia, transmontano valente, pôr-se aos gritos...Mandem-me mais para o Norte! Isto porque se recusava a cumprir às vezes o ordenado nas neps (Normas de Execução Permanente) que recebíamos...Para bem da saúde do pessoal...

Fiz o mesmo muitas vezes. Sem gritar...Por exemplo, nunca obriguei o pessoal a levantar minas.

A alternativa era o meu plano A: um tronco pesado, uma granada ofensiva atada, cordel atado à argola, grampos da argola endireitados, esconder, puxa o cordel! Espreitávamos, se a cova era grande a mina tinha rebentado. Rebentou sempre. Mas se não rebentasse, tínhamos que passar ao plano B. Que não havia. Tinha que o desenrascar na altura...

Mais para Norte não nos mandavam...Ali a 50 metros era a Tanzânia...

Onde alguns de nós fizémos turismo...à Gaspar...de tanga...


(a) Agora a também mui digna Maria Luís Albuquerque

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O AMOR A 40 GRAUS... CELSIUS...

 
1. Acto ou efeito de cafrealizar ou de se cafrealizar.

2. [Depreciativo]   [Depreciativo]  Adoção por parte dos europeus de comportamentos associados aos indígenas africanos.

"cafrealização", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/cafrealiza%C3%A7%C3%A3o [consultado em 08-09-2014].


Éramos um grupo de 166 em Negomano, no Rovuma e no Lugenda, em 1967. Só salsichas...


Excluindo 2 dos sargentos do quadro permanente mais velhos, todos em idade de amar...

Nós os lusitanos nunca fomos esquisitos nessa área...


Quando um casal se junta, há automaticamente um merge, uma mistura de hábitos de um e de outro.

Cafrealizar não existe em português. Só para alguns tugas com manias de importância pessoal, tipo europeus bem

instalados...

E foi assim:

Éramos a Companhia de Cavalaria 1730, sediada em Negomano, no meio de duas altas fieiras de arame farpado.

Pertencíamos ao Batalhão de Cavalaria 1923, sediado em Mocímboa do Rovuma, com uma companhia operacional, a Companhia de Cavalaria 1729, e a CCS (Companhia de Comando e Serviços).

A restante companhia operacional em Nangade, Companhia de Cavalaria 1728.

Na nossa, a 1730, havia 3 ranchos diferentes:

O dos oficiais (6 manos), mais o administrador de posto português, sua esposa e filha.

O dos sargentos.

E o dos cabos e soldados.

O chefe do rancho dos soldados era o Soares, 1º cabo cozinheiro. Alentejano alto, forte, bem parecido.

Há muita mariquice num grupo de machos, e já me tinha soado que o Soares assediava uma maconde muito bonita,

todos os dias, muito cedo, junto ao rio Lugenda, onde ela ia lavar roupa.

Mas eu, o chefe, não tinha nada com isso. Não prejudicava o trabalho dele.

Vou abreviar...

Um dia à tarde, estava eu na sala de comando a escrever e a ler papelada, cireps, citreps, neps, etc., quando me entra no

gabinete o alferes de piquete, todo artilhado...G3, 4 carregadores no cinto, granadas defensiva e ofensiva nas alças dos

ombros, faca de mato, ar feroz...

Meu capitão, tem lá em baixo à sua porta centenas de macondes em protesto. Eu já devia estar um pouco surdo,

porque não tinha reparado no barulho...

Sabe porquê? Parece que o Soares se agarrou a uma maconde hoje de manhã no Lugenda.  Houve violação? Não,

toda a gente viu que não houve.

Chame o Soares e dois cipaios do administrador de posto, sff -só os cipaios falavam português.

O Soares entra no gabinete lavado em lágrimas, que a sua apaixonada afinal era casada sem ele ter percebido.

Povo Maconde, povo monogâmico de maioria Cristã.

Soares aterrado, porque sabia que lhe ia acontecer o costume em casos graves: eu tinha que lhe dar 2 dias de prisão

(simbólico, não havia prisão nenhuma...) e era transferido para a sede do batalhão, em Mocímboa do Rovuma.

O maior "terror" de Negomano: aturar o tenente-coronel e os 2 majores...

Soares, tens coragem para ir pedir desculpas públicas à maconde e ao marido? Os olhos brilharam-lhe...Era uma

alternativa...Já podia alistar-se na GNR, como queria...

Alferes...chame os dois cipaios cá acima, sff.

Vão perguntar ao casal se aceitam desculpas públicas do cabo cozinheiro.

Imaginem a cena: desço com o Soares, o alferes e os dois cipaios, avançamos por entre os macondes, Soares de

mão estendida, dentes muito brancos de alegria da maconde e do marido.

Abraços... extensíveis ao pelotão de piquete... Lágrimas.

Dispersar...



Em tempo

Por várias cenas como esta, as mocinhas e mocinhos macondes e macuas da escola de português de Negomano

cantavam o Hino Português no içar da Bandeira ao Domingo.

Sabiam o nosso Hino melhor do que eu, português da "centésima milionésima" geração...