segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O AMOR A 40 GRAUS... CELSIUS...

 
1. Acto ou efeito de cafrealizar ou de se cafrealizar.

2. [Depreciativo]   [Depreciativo]  Adoção por parte dos europeus de comportamentos associados aos indígenas africanos.

"cafrealização", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/cafrealiza%C3%A7%C3%A3o [consultado em 08-09-2014].


Éramos um grupo de 166 em Negomano, no Rovuma e no Lugenda, em 1967. Só salsichas...


Excluindo 2 dos sargentos do quadro permanente mais velhos, todos em idade de amar...

Nós os lusitanos nunca fomos esquisitos nessa área...


Quando um casal se junta, há automaticamente um merge, uma mistura de hábitos de um e de outro.

Cafrealizar não existe em português. Só para alguns tugas com manias de importância pessoal, tipo europeus bem

instalados...

E foi assim:

Éramos a Companhia de Cavalaria 1730, sediada em Negomano, no meio de duas altas fieiras de arame farpado.

Pertencíamos ao Batalhão de Cavalaria 1923, sediado em Mocímboa do Rovuma, com uma companhia operacional, a Companhia de Cavalaria 1729, e a CCS (Companhia de Comando e Serviços).

A restante companhia operacional em Nangade, Companhia de Cavalaria 1728.

Na nossa, a 1730, havia 3 ranchos diferentes:

O dos oficiais (6 manos), mais o administrador de posto português, sua esposa e filha.

O dos sargentos.

E o dos cabos e soldados.

O chefe do rancho dos soldados era o Soares, 1º cabo cozinheiro. Alentejano alto, forte, bem parecido.

Há muita mariquice num grupo de machos, e já me tinha soado que o Soares assediava uma maconde muito bonita,

todos os dias, muito cedo, junto ao rio Lugenda, onde ela ia lavar roupa.

Mas eu, o chefe, não tinha nada com isso. Não prejudicava o trabalho dele.

Vou abreviar...

Um dia à tarde, estava eu na sala de comando a escrever e a ler papelada, cireps, citreps, neps, etc., quando me entra no

gabinete o alferes de piquete, todo artilhado...G3, 4 carregadores no cinto, granadas defensiva e ofensiva nas alças dos

ombros, faca de mato, ar feroz...

Meu capitão, tem lá em baixo à sua porta centenas de macondes em protesto. Eu já devia estar um pouco surdo,

porque não tinha reparado no barulho...

Sabe porquê? Parece que o Soares se agarrou a uma maconde hoje de manhã no Lugenda.  Houve violação? Não,

toda a gente viu que não houve.

Chame o Soares e dois cipaios do administrador de posto, sff -só os cipaios falavam português.

O Soares entra no gabinete lavado em lágrimas, que a sua apaixonada afinal era casada sem ele ter percebido.

Povo Maconde, povo monogâmico de maioria Cristã.

Soares aterrado, porque sabia que lhe ia acontecer o costume em casos graves: eu tinha que lhe dar 2 dias de prisão

(simbólico, não havia prisão nenhuma...) e era transferido para a sede do batalhão, em Mocímboa do Rovuma.

O maior "terror" de Negomano: aturar o tenente-coronel e os 2 majores...

Soares, tens coragem para ir pedir desculpas públicas à maconde e ao marido? Os olhos brilharam-lhe...Era uma

alternativa...Já podia alistar-se na GNR, como queria...

Alferes...chame os dois cipaios cá acima, sff.

Vão perguntar ao casal se aceitam desculpas públicas do cabo cozinheiro.

Imaginem a cena: desço com o Soares, o alferes e os dois cipaios, avançamos por entre os macondes, Soares de

mão estendida, dentes muito brancos de alegria da maconde e do marido.

Abraços... extensíveis ao pelotão de piquete... Lágrimas.

Dispersar...



Em tempo

Por várias cenas como esta, as mocinhas e mocinhos macondes e macuas da escola de português de Negomano

cantavam o Hino Português no içar da Bandeira ao Domingo.

Sabiam o nosso Hino melhor do que eu, português da "centésima milionésima" geração...











 

 
 

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