Em 1966 Portugal continuava a resistir à evolução histórica, defendendo as suas colónias dos movimentos de independência.
Era a guerra do Ultramar.
Vivendo o milhão de Portugueses nas colónias há séculos, em ambiente de supremacia branca, junto à África do Sul, também em ambiente de supremacia branca, aqui feroz mesmo com os não brancos, os nossos Portugueses sentiam que a situação seria eterna.
Apoiado nesta supremacia branca consolidada, Salazar e seus apoiantes erraram, por falta de consciência de que os direitos humanos têm que ser iguais para todos os humanos.
Salazar não preparou as colónias para a independência, não preparou os movimentos locais para se transformarem em partidos, não preparou as relações económicas futuras de Portugal com as colónias, isto é, os novos países.
Foi antes para a guerra, defendendo a ideia que Portugal era um país multirracial e pluricontinental. A serra mais alta de Portugal deixou de ser a nossa querida Serra da Estrela e passou a ser Tatamailau, em Timor…
Centenas de milhares de jovens como vocês, os mais jovens, foram chamados pelo Exército, treinados com dureza quanto baste, e enviados para a Guiné, Angola e Moçambique.
Já menos jovem quando embarquei para Moçambique.
Antes, 6 meses na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, com granadas a rebentar perto dos ouvidos, na tapada - curso de promoção a capitão (CPC).
Depois (longo...) estágio no CIOE - Centro de Instrução de Operações Especiais (rangers), em Lamego.
Depois mais de 8 meses a formar o batalhão de Cavalaria 1923, em Estremoz (Cavalaria 3).
Antes, 6 meses na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, com granadas a rebentar perto dos ouvidos, na tapada - curso de promoção a capitão (CPC).
Depois (longo...) estágio no CIOE - Centro de Instrução de Operações Especiais (rangers), em Lamego.
Depois mais de 8 meses a formar o batalhão de Cavalaria 1923, em Estremoz (Cavalaria 3).
Dir-se-á que a esperteza não se ensina, mas se aprende. Todos pensam que são mais espertos, mas vendo os filmes da época da guerra da Argélia e do Vietname, filmes apoiados em consultores militares, fazem-me sorrir da ingenuidade dos seus intervenientes ocidentais.
Nós fomos mesmo mais espertos. Acresce a nossa inconsciência "estranha" perante o medo.
Em 1966, 2 de Agosto, terminei a licenciatura em Economia, no actual ISEG, em Lisboa. Casado, pai de dois rapazes, 1 e 3 anos de idade, trabalhava desde os 19 anos como contabilista.
Dias depois chegaram 3 postais, seguidos, de Mafra, Escola Prática de Infantaria: obrigado a apresentar-me no quartel 15 dias depois, como tenente miliciano. Tenho os postais guardados...
Passei a ganhar muito menos de metade do ordenado que tinha na vida civil. Tivemos que deixar a casa onde vivíamos, porque a renda comia o ordenado (soldo) todo. Fomos para casa dos meus sogros.
Formámos no cais da Matinha em 1967: um batalhão de Cavalaria (660 homens, o meu), para o Rovuma, um batalhão de Caçadores (Infantaria) para o Niassa e uma companhia de Polícia Militar para Nampula. Distribuição de maços de tabaco Paris pelas senhoras do Movimento Nacional Feminino: atendendo ao posto, 2 maços, alferes, um maço...
O meu pai, homem de vida dura, escondido ao longe, a chorar. Soube pela minha mãe mais tarde.
33 dias no paquete Niassa até Mocimboa da Praia.
Antes, acostagem em Luanda. Linda, um espanto em Português. Brancos e não brancos nas esplanadas, amigos em cavaqueira. Emocionante, só em Angola...
Depois Lourenço Marques (actual Maputo). Desembarcámos e desfilámos até ao palácio do governador - 2.000 homens. Assobiados e apupados por milhares da população portuguesa. Os gritos: que não havia guerra nenhuma, que só íamos lá roubar, etc. Penso que defendiam uma independência "branca ", estilo África do Sul (da época...).
Chegados a Mocimboa da Praia, o Niassa não se aproximou de terra: desembarcámos ao longe para batelões da Marinha. Parecia que afinal havia guerra.
Recebidos os oficiais pelo tenente-coronel do batalhão local, informou-nos que na véspera tinha havido um ataque à bazucada a uma coluna nossa: um unimogue destruído, vários mortos, entre eles 3 furriéis milicianos. Havia mesmo guerra.
Recebemos o armamento: G3 novas, 5 carregadores com 20 balas cada, uma faca de mato, uma granada defensiva e uma ofensiva. Igual para todos.
No dia seguinte, partida para Mueda, "a terra da guerra" (como aqui viemos a ler nas paredes), escoltados por um pelotão em auto-metralhadoras Panhard (pequenos blindados rápidos) e 2 T6 a sobrevoarem-nos. Muitos tiros, alguns rebentamentos, saltar várias vezes das viaturas e algumas baixas (não identifiquei) até à chegada a Mueda. Valentia espantosa dos homens do pelotão Panhard, que nos escoltava..., incansáveis. Tínhamos saído de noite e chegámos já de noite. Comi e bebi ao todo uma lata de pêssego em calda.
Em Mueda o tenente-coronel do batalhão local ofereceu-nos jantar: massa com carne. Encontrei o meu amigo Deslandes, como eu capitão miliciano. Jantámos os dois a uma mesa (de pedra). Centenas de oficiais na sala. Estávamos a acabar de comer e começaram-se a ouvir grandes estrondos, rebentamentos que pareciam dentro do imóvel onde estávamos, as luzes a apagar, a casa e o miolo tudo a abanar. E foi a fuga da sala. O Deslandes não se calava, mesmo às escuras, tinha n histórias atrasadas de guerra por contar. Perguntei-lhe a certa altura porque é que nós não fugíamos como os outros. Não me ligou nenhuma e continuou.
No final desta guerra, o major do meu batalhão foi “apanhado” escondido debaixo duma dessas mesas…Muito gozado pelo capitão da bataria de Artilharia de Mueda…dizia-se que sobrinho de general...
No final desta guerra, o major do meu batalhão foi “apanhado” escondido debaixo duma dessas mesas…Muito gozado pelo capitão da bataria de Artilharia de Mueda…dizia-se que sobrinho de general...
No dia seguinte, partida para os nossos destinos: uma companhia para Nangade, duas companhias para Mocimboa do Rovuma (sede do batalhão) e uma companhia (a minha) para Negomano. Todas instaladas junto ao Rovuma, fronteira Norte.
O cabo condutor do nosso rebenta-minas (berlier de 5 toneladas com atrelado, carregados de sacos de areia que encabeçava a coluna), olho de lince, descobriu todas as minas anti-carro do percurso, antes de as pisar. Não levantámos as minas, como era das neps (normas de execução permanente). Rebentámo-las por simpatia, atando e fazendo explodir uma granada ofensiva. Já era eu que dava as ordens...
Negomano, junto aos rios Rovuma e Lugenda, era um aldeamento principalmente maconde e macua, com alguns milhares de pessoas. Centenas de cubatas. Entre duas longas fieiras de arame farpado, montado em altos cavaletes de madeira, ambas em círculo. Um cavalo de frisa como porta para o exterior, outro cavalo de frisa como porta para o interior, o aquartelamento.
Abertos durante o dia. Liberdade de movimentos para a população do aldeamento durante o dia. Sem controle pelo administrador de posto (funcionário português da administração ultramarina).
No interior do 1º círculo de arame farpado, duas casas e 3 abarracamentos de tijolo à vista, cobertos por chapas de zinco. Numa das casas, tipo colonial, o administrador de posto e família e os oficiais da companhia. A outra casa, muito modesta, com 2 andares, antigo posto da Guarda Fiscal, o comando da companhia. O meu gabinete no 1º andar. Nos abarracamentos os sargentos, os cabos e os soldados. Ainda uma cantina. Com muito poucos géneros, não havia mercado local.
À volta da 1ª fieira de arame farpado, por dentro, uma longa vala, estilo trincheira, para defesa de ataques do exterior. Ainda à volta, também por dentro, umas 10 guaritas em tijolo à vista, construídas a uns 4 metros de altura, com várias viseiras à volta. Subida por escada de madeira, que se recolhia para dentro da guarita, à noite. 3 soldados em cada guarita, à noite. Deviam dormir por turnos, mas ficavam sempre acordados...Tiros em todas as noites, sem excepção: vultos, leões ou "aparentados", luzes estranhas, e claro, algum medo. Companhia com 166 atiradores que se tornaram rapidamente exímios.
À volta do 2º círculo de arame farpado, por fora, fora do enfiamento do aldeamento, grandes zonas armadilhadas (com explosivos), por sectores. Explosores no meu quarto.
Era uma boa organização da defesa, dentro das possibilidades.
Os guerrilheiros da Frelimo, vindos das bases da Tanzânia, dali mesmo, do outro lado do Rovuma (que alguns de nós atravessámos com água pelo peito), atravessavam aos trezentos, fortemente armados. Em locais afastados, entre as 3 companhias operacionais.
Nunca vi, claro. Felizmente...Mas se aparecessem, não seria um Álamo (a): estávamos muito bem preparados (b).
G3 faz 100 tiros, 400, 500 guerrilhas seriam massacrados antes de atravessarem a primeira fieira de arame farpado.
Sei que é chocante fazer esta afirmação, mas era uma guerra e queriam-nos matar.
Sabíamos desses grandes grupos de intromissão pelo meu "serviço de informações": os cipaios ao serviço do administrador de posto, que este me disponibilizava. Isto porque os serviços de informações oficiais, a PIDE, não confiavam num capitão que era miliciano.
G3 faz 100 tiros, 400, 500 guerrilhas seriam massacrados antes de atravessarem a primeira fieira de arame farpado.
Sei que é chocante fazer esta afirmação, mas era uma guerra e queriam-nos matar.
Sabíamos desses grandes grupos de intromissão pelo meu "serviço de informações": os cipaios ao serviço do administrador de posto, que este me disponibilizava. Isto porque os serviços de informações oficiais, a PIDE, não confiavam num capitão que era miliciano.
(a) Nota do Google (ajeitada por mim): os Texanos foram quase todos mortos em Álamo, mas acabaram por vencer definitivamente o general Mexicano e o seu exército na Batalha de San Jacinto.
(b) Claro que qualquer bataria de artilharia colocada na Tanzânia nos punha a fugir...Mas era pouco provável pelos efeitos internacionais. Também qualquer batalhão mecanizado que atravessasse o Rovuma nos punha a fugir...Mas a guerrilha era muito rudimentar...Embora tivessem armas mais modernas que as nossas...
A execrável supremacia branca era uma arma a nosso favor: "tropa oé, tropa maningue..."
E no meio dos meus sonos, até tinha formado um plano de fuga, local de instalação ... e reacção.
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