quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Os Nord Atlas, as Dorniers, ...e os T6...

sexta-feira, 4 de Abril de 2014


 

Em 1969 não havia quaisquer alterações de atitude em Portugal para com os movimentos armados pró-independência nas colónias.

O milhão de portugueses lá residente, quase na totalidade nascidos nas colónias, eram e sentiam-se africanos, africanos portugueses. A supremacia branca era visceral, nem davam por ela.

Os militares portugueses que foram lá defender o statu quo, a autoridade portuguesa implantada há séculos, tiveram, na minha opinião, um efeito mais importante: a defesa da vida dos nossos nacionais.

Este efeito mais importante era a razão que nos dava força, a nós oficiais milicianos e talvez à maioria dos oficiais do quadro permanente.

Não havia alternativa: para Salazar, Portugal eram país multicontinental e plurirracial...

Restava a esperança numa nova atitude política ... e continuava a guerra colonial...


A supremacia aérea é chave em qualquer conflito bélico.

A nossa supremacia aérea em 1968 e 69, em Moçambique, era exercida pelos aviões T6.

Monomotores de 2 lugares, eram aviões da 2ª guerra mundial, dizia-se que não planavam se com paragem de motor, por isso paraquedas.

Foram-lhes montados nas asas suportes para bombas, metralhadoras e ninhos de foguetes. Não se podia poupar mais: eram caças e bombardeiros...

Até que...

A guerrilha começou a usar mísseis terra ar, portáteis, várias origens, eficazes...

O objectivo da nossa missão anterior era a destruição do maior número possível desses lança mísseis. Missão falhada.

Sugeri em reuniões que na próxima missão nos centrássemos no objectivo, evitando contactos e baixas no percurso. Para isso era necessário esquecer as nep's, rebentar e não levantar as minas e fazer fogo de reconhecimento em percursos suspeitos, mesmo com paragens e lançamento de dilagramas. E que o pessoal na missão tivesse menos de 35 anos de idade.

Face aos bons resultados de Negomano, em que as deslocações para Mueda, Diaca e Sagal, eram ilegalmente feitas por esse método, os comandos do sector calaram as críticas às violações das nep 's. Os majores calaram a reacção por terem mais de 35 anos.

Não foi nada aprovado. Simplesmente não se falou mais nisso.
...

A ansiedade da espera pelo arranque da 2ª missão...Se com o treino físico o coração aumenta de tamanho, com a espera "diminui"...A escolha dos 50 elementos da minha companhia muito difícil... Só os incapacitados físicos não se ofereceram para alinhar. Tive que gritar que não estávamos numa democracia, repetidas vezes...

O Cosme já era alferes novamente e o Mata, um metro e oitenta e tal, imponente na sua farda número dois, farda de oficial porque tinha sido promovido a sargento ajudante, espadas de Cavalaria na boina, o nosso batalhão do Rovuma, vendedor de informática na vida civil, possibilidade de carreira militar à sua frente.

Penso que poucos dormiram na véspera do arranque. Saída planeada para as 5 da manhã. Amanhecia às 6...durante quase todo o ano...equador próximo...

Capitão P no comando (meu ex-instrutor no CIOE, Lamego), cabia-me o 2º lugar.

Uma berlier com atrelado, carregados de sacos de areia, como rebenta minas, 5 unimogues com os 2 pelotões de operações especiais, 2 jeeps com canhões sem recuo, mais 5 unimogues com a minha equipa after marginal, na palavra do brigadeiro.

A conduzir o rebenta minas o 1º cabo Feioso, ao lado, em pé, o Mata com uma metralhadora pesada mg qualquer coisa, instalada no para brisas. No meio dos 2 o Diogo, municiador, grande comprimento de fita à volta do pescoço...

Saímos ainda pela calada da noite. Muito pessoal com "tremuras", não vi queixos a bater...

Semblante assustador, o dos operações especiais...


As informações que tínhamos referiam um grande armazém  na região de Mutarare, tipo supermercado actual, já costume africano da época

Um dia de picada. Em zonas ermas e suspeitas fizemos rajadas de reconhecimento; parámos duas vezes para rebentar minas. Parámos já noite a uma distância estimada de 3 Km. do armazém, segundo os nossos dois guias. Tínhamos-lhes oferecido duas espingardas de caça grossa...Muito solícitos...

Sentinelas de 2 em 2 horas na periferia. Dormitámos nos carros. O pessoal dos jeeps cobriram-nos de ramos de árvores. Bem camuflados.

Marcha apeada às 4 da manhã, lenta, operações especiais à frente com os dois guias, os dois jeeps, o meu pessoal atrás. Marchei...no primeiro jeep. Motores a gasolina, pouco ruído...Luzes apagadas...

Canhão sem recuo, por saída compensada dos gases de impulso, 84 mm, nunca tinha visto...Ao meu lado...Muitas cargas no chão do jeep...Os 4 artilheiros de auscultadores de tiro à volta do pescoço...Uma novidade...Municiado, segredou-me um deles.

Cães e outros animais em ruído habitual no mato, não nos ligavam nenhuma...

Ao fim de mais duma hora a coluna parou. Os jeeps avançaram lentamente por entre o arvoredo, ficando lado a lado.

O capitão P comunicou-me que estariam em posição frontal com o barracão...que estaria a uns 400 - 500 metros. Granadas não auto-propulsadas nos canhões sem recuo em posição de tiro.

Todos os morteiros apontados para a (eventual, sem se ver...) zona traseira do armazém.

Começava a amanhecer...

Adrenalina ao máximo...coração muito mais "pequeno", a tremer, mão na barriga...tremia por dentro...



Mas como de costume acabava tudo por ir ao sítio...

Comunicação do capitão P: depois dos primeiros disparos dos canhões sem recuo, crie um trilho entre o jeep da direita e o centro do barracão. Bazucadas a partir de 100 metros à frente do jeep, de 20 em vinte metros até ao barracão. Desminagem do trilho...

Com as falhas, seriam uns 20 disparos ao todo. Ouvindo o meu telefonema, já tinham chamado o nosso artista bazuca, mais o municiador. O primeiro cabo Varicela e o seu esgar de orgulho...Mais o assistente do mestre, o Primo.

Tudo desenrascado, os dois primeiros tiros em cheio na zona central do barracão...Tiros ensurdecedores, tiros altos, parte da parede abaixo, parte do telhado abaixo.

Granadas de bazuca a criarem o trilho...Morteirada para trás do barracão em espera...

Um pequeno inferno...

Cessar fogo! Não tinha decorrido 40 minutos...

Uma longa espera...No silêncio possível.

Pessoal não armado a fugir por detrás do barracão...Guerrilha?

Um pelotão preparado para avançar pelo trilho para reconhecimento do armazém.

Canhões sem recuo apontados para a cratera criada com os dois tiros. Posição desenfiada do trilho.

Necessidade da possível desminagem dos primeiros 100 metros do trilho. Granadas ofensivas (sem estilhaço) lançadas para a frente, no trilho. Avanço a rastejar...

Entraram no armazém, sem tiros. Sem ninguém dentro.

Mais de 200 lança mísseis...diversos...milhares de granadas auto propulsionadas...

Trouxemos uns 10 lança mísseis e várias granadas. O resto destruído.

Regresso à base.

Sem baixas, de parte a parte. Só do equipamento destruído...

Jeep comigo, capitão P e Cosme...Pensão Arriscado...Bolacha araruta...Duche...Cama...


Faltou dizer: Os Nord Atlas eram uns excelentes aviões. Dois motores potentes a hélice, com dois foguetes nas pontas das asas na ajuda à descolagem. Levantámos de Nampula, direcção Nacala, sempre sobre as praias até Lourenço Marques. Carregadíssimos...Se parasse um motor, era planagem numa praia...Não seria a primeira vez...O que nos chateava era o pessoal da FAP não em serviço sempre a olhar se algum motor parava...
As Dorniers tinham só um motor, o mais barulhento que se possa imaginar...O alferes piloto foi um artista na ida para Porto Amélia, mas tinha a mania de picar sobre os aldeamentos macondes. Nem eu nem o alferes mais antigo da minha companhia, sentado atrás numa grade de cervejas, hoje distinto coronel, apelámos ao gregório...









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