quinta-feira, 14 de agosto de 2014

NAMPULA 1968


Porque as memórias se esfumam como o vento...


7 meses e 18 dias. Evacuado para o hospital militar de Nampula. Pouco mais de um mês internado. Visitado pelo comandante de batalhão e por vários capitães em risco de me irem substituir em Negomano. Esperançados que eu voltasse para Negomano...Mas nem lá foram ver...A única visita de oficial superior a Negomano foi a do brigadeiro (major-general) Remígio, comandante do subsector Porto Amélia (Pemba), no Natal. Visita muito estimada - pessoal em grande isolamento. A CCAV 1730 ficou a ser comandada pelo alferes mais antigo, hoje distinto coronel.


Ao tomar o avião para Nampula, o BD, médico amigo, disse-me que o cirurgião-chefe de Mueda lhe tinha confidenciado que eu teria poucos meses de vida....
 
Imaginem...estremeci bastante...no avião...e não era turbulência...
 
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Mas até melhorei, passei a tratamento ambulatório. Adido ao batalhão de Caçadores de Nampula (Infantaria). Mais graduado, fui nomeado comandante da companhia de caçadores adidos. Trezentos e muitos lusos. Muletas, etc., maioria em mau estado... Mas muitos eram jovens "marginais" psiquicamente desequilibrados, sãos fisicamente, presos várias vezes, incontroláveis nas suas unidades: os dirty dozen do filme...Tinham camas para dormir, mas em estrados de madeira, não tinham colchões. Luta com o Conselho Administrativo, consegui os trezentos e tal colchões de espuma…”Promovido a rei”… Pela primeira vez alguém estava a conseguir controlá-los. Até se levantaram (pela 1º vez) na visita do brigadeiro Domingues (major-general), chefe do Estado Maior General Avançado.

Tempo depois, fui chamado ao seu gabinete: elogiou-me..., se seria voluntário para acompanhar uma missão difícil, comandada por um major, que a minha experiência prática em Negomano seria importante. Que incluiria dois pelotões de caçadores (um era de sapadores) e dois pelotões de operações especiais - rangers, comandados por um capitão. Eu seria o 3º na cadeia de comando. E se conseguiria arranjar 60 voluntários entre os "marginais". Um dia para pensar. 

Não gostei...era pessoal a mais...a contra-guerrilha não é assim...Mas...
Tinha resolvido oferecer-me para tudo...Preferia não voltar a Portugal vivo...
 
Reuni a companhia à minha volta. Entusiasmo louco..., ofereceram-se cerca de 150 voluntários...em grande bandalheira. Mandei destroçar e passados minutos fui convidá-los um a um...

Operação arrancou a meio da noite... e correu mal…para nós…. mais para uns que para outros... Outras se seguiram.., que correram bem...; tinham a ver com mísseis anti-aéreos que a guerrilha estava a usar...Mísseis? Quais mísseis...? Vários dos “marginais” foram promovidos por distinção: convites a meterem o “chico”… Reabilitação de muitos…Quase todos...
Cenas de guerra?... Mutarara: várias...Ficam por contar...

Entretanto o tempo foi passando, fui melhorando como no filme Hereafter (Outra Vida-não deixem de ver…).


Fase de treino de salto de viaturas em andamento, utilizando o treino enquanto adolescente de salto dos eléctricos em fuga ao picas...Treino espectacular com Tugas loucos...Farda já muito suja, tinha caído uma vez. Aproximam-se dois oficiais em farda número 1...pareciam generais...Acompanhe-nos, o nosso brigadeiro quer falar-lhe na sala de operações do Estado Maior. Lá fui,  coração pequenino, "que é que terás feito...". Entrada na sala, mais de 100 oficiais presentes, recebi um louvor verbal do brigadeiro, "discurso infindável"...(a)

No final, com a cara já "muito quente", o major da Psico destacou-se dum grupo, correu para mim, fez uma vénia budista, e abraçou-me com alguma violência...

"É um bem-aventurado, capitão Sá Pereira",

 Estranho! Nunca tive oportunidade de lhe perguntar o que queria dizer...

Regressado a Lisboa, ”mandei vir” rapidamente a Teresocas… na foto com os irmãos Rui e Paulo… e continuo mais ou menos ... muito obrigado... Passaram-se 43 anos, estou cada vez mais conteente de estar vivo e nunca tinha contado isto a ninguém...

Deficiente militar em campanha, sem direito a nada, o Exército ainda me trata por capitão e dizem que ainda estão a tratar do meu processo…

 
(a) Tem que constar no Arquivo Militar, nas Ordens do Dia do Sector Avançado.

 
Antigo Combatente
Requerimento
Data
Tempo de serviço militar
Tr.
 Receção
 MDN/CGA 
Incorporação
Disponibilidade
 Bonificado 
     Total     
  580535
2004-01-01
2004-07-19
1970-02-13
00a 07m 18d
05a 06m 20d
S
 
Utentes da CGA
Info Utente
 

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Os Nord Atlas, as Dorniers, ...e os T6...

sexta-feira, 4 de Abril de 2014


 

Em 1969 não havia quaisquer alterações de atitude em Portugal para com os movimentos armados pró-independência nas colónias.

O milhão de portugueses lá residente, quase na totalidade nascidos nas colónias, eram e sentiam-se africanos, africanos portugueses. A supremacia branca era visceral, nem davam por ela.

Os militares portugueses que foram lá defender o statu quo, a autoridade portuguesa implantada há séculos, tiveram, na minha opinião, um efeito mais importante: a defesa da vida dos nossos nacionais.

Este efeito mais importante era a razão que nos dava força, a nós oficiais milicianos e talvez à maioria dos oficiais do quadro permanente.

Não havia alternativa: para Salazar, Portugal eram país multicontinental e plurirracial...

Restava a esperança numa nova atitude política ... e continuava a guerra colonial...


A supremacia aérea é chave em qualquer conflito bélico.

A nossa supremacia aérea em 1968 e 69, em Moçambique, era exercida pelos aviões T6.

Monomotores de 2 lugares, eram aviões da 2ª guerra mundial, dizia-se que não planavam se com paragem de motor, por isso paraquedas.

Foram-lhes montados nas asas suportes para bombas, metralhadoras e ninhos de foguetes. Não se podia poupar mais: eram caças e bombardeiros...

Até que...

A guerrilha começou a usar mísseis terra ar, portáteis, várias origens, eficazes...

O objectivo da nossa missão anterior era a destruição do maior número possível desses lança mísseis. Missão falhada.

Sugeri em reuniões que na próxima missão nos centrássemos no objectivo, evitando contactos e baixas no percurso. Para isso era necessário esquecer as nep's, rebentar e não levantar as minas e fazer fogo de reconhecimento em percursos suspeitos, mesmo com paragens e lançamento de dilagramas. E que o pessoal na missão tivesse menos de 35 anos de idade.

Face aos bons resultados de Negomano, em que as deslocações para Mueda, Diaca e Sagal, eram ilegalmente feitas por esse método, os comandos do sector calaram as críticas às violações das nep 's. Os majores calaram a reacção por terem mais de 35 anos.

Não foi nada aprovado. Simplesmente não se falou mais nisso.
...

A ansiedade da espera pelo arranque da 2ª missão...Se com o treino físico o coração aumenta de tamanho, com a espera "diminui"...A escolha dos 50 elementos da minha companhia muito difícil... Só os incapacitados físicos não se ofereceram para alinhar. Tive que gritar que não estávamos numa democracia, repetidas vezes...

O Cosme já era alferes novamente e o Mata, um metro e oitenta e tal, imponente na sua farda número dois, farda de oficial porque tinha sido promovido a sargento ajudante, espadas de Cavalaria na boina, o nosso batalhão do Rovuma, vendedor de informática na vida civil, possibilidade de carreira militar à sua frente.

Penso que poucos dormiram na véspera do arranque. Saída planeada para as 5 da manhã. Amanhecia às 6...durante quase todo o ano...equador próximo...

Capitão P no comando (meu ex-instrutor no CIOE, Lamego), cabia-me o 2º lugar.

Uma berlier com atrelado, carregados de sacos de areia, como rebenta minas, 5 unimogues com os 2 pelotões de operações especiais, 2 jeeps com canhões sem recuo, mais 5 unimogues com a minha equipa after marginal, na palavra do brigadeiro.

A conduzir o rebenta minas o 1º cabo Feioso, ao lado, em pé, o Mata com uma metralhadora pesada mg qualquer coisa, instalada no para brisas. No meio dos 2 o Diogo, municiador, grande comprimento de fita à volta do pescoço...

Saímos ainda pela calada da noite. Muito pessoal com "tremuras", não vi queixos a bater...

Semblante assustador, o dos operações especiais...


As informações que tínhamos referiam um grande armazém  na região de Mutarare, tipo supermercado actual, já costume africano da época

Um dia de picada. Em zonas ermas e suspeitas fizemos rajadas de reconhecimento; parámos duas vezes para rebentar minas. Parámos já noite a uma distância estimada de 3 Km. do armazém, segundo os nossos dois guias. Tínhamos-lhes oferecido duas espingardas de caça grossa...Muito solícitos...

Sentinelas de 2 em 2 horas na periferia. Dormitámos nos carros. O pessoal dos jeeps cobriram-nos de ramos de árvores. Bem camuflados.

Marcha apeada às 4 da manhã, lenta, operações especiais à frente com os dois guias, os dois jeeps, o meu pessoal atrás. Marchei...no primeiro jeep. Motores a gasolina, pouco ruído...Luzes apagadas...

Canhão sem recuo, por saída compensada dos gases de impulso, 84 mm, nunca tinha visto...Ao meu lado...Muitas cargas no chão do jeep...Os 4 artilheiros de auscultadores de tiro à volta do pescoço...Uma novidade...Municiado, segredou-me um deles.

Cães e outros animais em ruído habitual no mato, não nos ligavam nenhuma...

Ao fim de mais duma hora a coluna parou. Os jeeps avançaram lentamente por entre o arvoredo, ficando lado a lado.

O capitão P comunicou-me que estariam em posição frontal com o barracão...que estaria a uns 400 - 500 metros. Granadas não auto-propulsadas nos canhões sem recuo em posição de tiro.

Todos os morteiros apontados para a (eventual, sem se ver...) zona traseira do armazém.

Começava a amanhecer...

Adrenalina ao máximo...coração muito mais "pequeno", a tremer, mão na barriga...tremia por dentro...



Mas como de costume acabava tudo por ir ao sítio...

Comunicação do capitão P: depois dos primeiros disparos dos canhões sem recuo, crie um trilho entre o jeep da direita e o centro do barracão. Bazucadas a partir de 100 metros à frente do jeep, de 20 em vinte metros até ao barracão. Desminagem do trilho...

Com as falhas, seriam uns 20 disparos ao todo. Ouvindo o meu telefonema, já tinham chamado o nosso artista bazuca, mais o municiador. O primeiro cabo Varicela e o seu esgar de orgulho...Mais o assistente do mestre, o Primo.

Tudo desenrascado, os dois primeiros tiros em cheio na zona central do barracão...Tiros ensurdecedores, tiros altos, parte da parede abaixo, parte do telhado abaixo.

Granadas de bazuca a criarem o trilho...Morteirada para trás do barracão em espera...

Um pequeno inferno...

Cessar fogo! Não tinha decorrido 40 minutos...

Uma longa espera...No silêncio possível.

Pessoal não armado a fugir por detrás do barracão...Guerrilha?

Um pelotão preparado para avançar pelo trilho para reconhecimento do armazém.

Canhões sem recuo apontados para a cratera criada com os dois tiros. Posição desenfiada do trilho.

Necessidade da possível desminagem dos primeiros 100 metros do trilho. Granadas ofensivas (sem estilhaço) lançadas para a frente, no trilho. Avanço a rastejar...

Entraram no armazém, sem tiros. Sem ninguém dentro.

Mais de 200 lança mísseis...diversos...milhares de granadas auto propulsionadas...

Trouxemos uns 10 lança mísseis e várias granadas. O resto destruído.

Regresso à base.

Sem baixas, de parte a parte. Só do equipamento destruído...

Jeep comigo, capitão P e Cosme...Pensão Arriscado...Bolacha araruta...Duche...Cama...


Faltou dizer: Os Nord Atlas eram uns excelentes aviões. Dois motores potentes a hélice, com dois foguetes nas pontas das asas na ajuda à descolagem. Levantámos de Nampula, direcção Nacala, sempre sobre as praias até Lourenço Marques. Carregadíssimos...Se parasse um motor, era planagem numa praia...Não seria a primeira vez...O que nos chateava era o pessoal da FAP não em serviço sempre a olhar se algum motor parava...
As Dorniers tinham só um motor, o mais barulhento que se possa imaginar...O alferes piloto foi um artista na ida para Porto Amélia, mas tinha a mania de picar sobre os aldeamentos macondes. Nem eu nem o alferes mais antigo da minha companhia, sentado atrás numa grade de cervejas, hoje distinto coronel, apelámos ao gregório...









sexta-feira, 25 de julho de 2014

GOLPES DE MÃO...

Não me refiro a carteiristas, nem a apalpadores...

Tem antes a ver com uma operação militar típica da Cavalaria: assalto e destruição.

Vou contar um golpe de mão a uma castiça aldeia alentejana. Em 1967, antes do embarque para Moçambique (33 dias
no Niassa...).

A esta distância no tempo, até eu acho piada.

Acho que esqueci mesmo as terríveis melgas, formigas a entrar por nós dentro ...ah, e as lagartixas...

O meu batalhão (B.Cav.1923), 660 homens em plena quinzena de  IAO (instrução de aperfeiçoamento operacional), bivacado, ie, acampado, em plena Serra D'Ossa. Dia e noite. Muito quente e muito frio, à vez...

Comandante o nosso tenente-coronel, 2 majores, capitães, etc.

Nesse período fomos muito inspecionados por oficiais superiores: 2 generais e um coronel.

Cheios de excelentes conselhos operacionais...muita experiência...

Tenente ainda, comandante da Companhia de Cavalaria 1730, fui encarregado de fazer um golpe de mão a uma pequena aldeia na Serra D'Ossa. Fomos acompanhados apenas pelo major de operações do batalhão, em avaliação técnica da operação. Dizia-se que o major tinha sido comandante da GNR no Porto. A comissão a Moçambique era para possibilitar a promoção mais rápida a tenente-coronel.

O major não me gramava, odiava os milicianos...

A meio da noite, arranque a pé para o golpe de mão. Tudo silencioso. Sempre fui um bocado desorientado..., mas com a ajuda da bússola e dos meus 3 guarda-costas, lá conseguimos descobrir a aldeia, ainda noite fechada.

Começámos a montar o cerco.

Começou a amanhecer. Silêncio de humanos, só o som dos canitos da aldeia.

Como diriam os "alemães" na série Allô-Allô, os camponeses alentejanos começavam a sair da aldeia, cajado na mão, garrafinha de tinto na outra, passavam por entre nós, ligando-nos muito pouco...já tinham "sofrido" golpes de mão anteriores...Alguns diziam "bom-dia, camaradas"...mas poucos...

Já tinha a maroteira preparada, gritei alto, no meio do silêncio da manhã:

CARREGAR ARMAS!

A minha Whalter de 9 mm perto da cabeça do major, meti a bala na câmara...Som esmagador...

O major gaguejou: que é que está a fazer, SP (eu)?

É para dar verdade à operação, resposta.


Passei a ter boas notas entre os comandantes de companhia do batalhão...

E não gozem o major...Qualquer um se mijava...







quarta-feira, 2 de julho de 2014

A descolonização no nosso tempo...

Descolonização pacífica? Ou não... Dolorosa sempre...Os que saem, deixam lá tudo o que fizeram...Alicerces construídos com muito suor, com muita alma, mas em cima de areia...É triste mas é a vida...
E nunca esqueçam: muitos jovens mortos, obrigados a defender o sistema colonial...
Sem sombra de dúvida, a maior perda!

Mas...
na colonização portuguesa, criámos novos países, criámos um embrião de unidade nacional entre povos que só se encontravam quando entravam em guerra uns com os outros. Por outras palavras, criámos nações!

Esta a maior herança dos portugueses que lá nasceram, que lá viveram, que lá construíram ... que lá deixaram tudo.

Porque: não ser colonizado é um direito fundamental dos humanos.

sexta-feira, 14 de março de 2014

MISSÃO: DESTRUIÇÃO DE LANÇA MÍSSEIS TERRA AR PORTÁTEIS.

Saída de Nampula às 4 da manhã, ruído normal dos camiões que vinham abastecer a cidade, com que nos cruzámos. Direcção grande área de Mutarare, local mal definido, a procurar...

Duas horas em velocidade muito baixa, pouco ruidosa.

De repente o inferno: ataque aos carros da frente.

Ataque repentino da guerrilha, instalada na vala direita da picada, de surpresa, em zona considerada não hostil. Muitas armas, explosões, o disparar de lança granadas, o cantar continuo de metralhadoras, algumas subsónicas. Troar diferente das nossas armas...

Mata! Leve os tubos dos morteiros para a vala esquerda! Deixe os pratos!
Cosme! Segurança na periferia do Mata!  Armem as duas bazucas! Tiros só à vista!
Saltamos para a vala esquerda, 48 saltos para o vazio, 48 que éramos, os "marginais".... Caí mal, mas não me aleijei muito...Muitos nervos, muitos queixos a bater...

Calma, é o baptismo de fogo, gritei...Para a maioria...

Acertaram nos carros da frente. Carros a arder...

Amanhecia, ainda se via o sulco inicial vermelho das balas...farda ensopada, calor, mosquitos...Mas muita adrenalina...

Os 5 unimogues da nossa equipa, no fim da fila, não tinham sido atingidos.

Walkie talkie: major, major...sem resposta, mas som claro...S (capitão ranger), que é que faço?

Estamos a atirar dilagramas para a vala contrária... Atire morteirada para lá de 200 metros...bazucadas só para

lá de 300 metros. Durante 30 minutos. Depois vamos avançar...Avancem atrás de nós pela direita...

Começaram a chover as nossas granadas de morteiro na suposta rectaguarda da guerrilha. Que se notava pelo som

que teriam retirado da vala direita uns bons metros para trás.

Martins, não sobes à picada! És forte mas também sangras! Em grandes gritos...Quem subisse à picada seria
massacrado...De ambas as partes. Martins era um jovem ajudante de enfermeiro na vida civil, nortenho de grande coragem, convencia-se da sua capacidade de sobrevivência, ilimitada...

Mas vais ser o primeiro a subir! No meio do drama, algumas palmas de loucos...

A reacção da guerrilha era cada vez mais afastada.

S, tenho um voluntário para subir à picada, se possível por detrás dum unimogue estoirado...Ok?

O capitão S tinha assumido o comando...O major devia estar gravemente ferido...ou pior...Ia no 2º carro da
frente...

Martins, andas 80 metros para a cabeça da coluna e falas com o capitão S. Só sobes à picada depois de falar com
ele. Depois ficas lá a ajudar aos feridos.

Cosme, assim que o Martins suba à picada, subimos nós mais o seu pelotão. Levem 2 tubos de morteiro e uma
bazuca. A guerrilha deve estar em fuga, mas temos que ver se há bunkers.

O aspirante Cosme comandava o 1º pelotão, punido por falta grave tinha sido despromovido de alferes. Mas o seu
comportamento já merecia a reposição de posto.

Mata comandava o nosso 2º pelotão, da equipa "marginal". Furriel miliciano, ferido em Nangade num ataque a
uma cantina da guerrilha, era um militar poderoso, sempre carregando a "sua" metralhadora pesada...

Mata, siga com o seu pessoal até ao capitão S.

Ao longe o Martins rastejou para a picada, debaixo dum unimogue estoirado, já a arder pouco. Desapareceu...
devia estar a espreitar para baixo, para a vala direita da picada...Levantou-se, grandes gestos chamando o
pessoal do capitão S.

Este subiu à picada acompanhado dos 2 pelotões de operações especiais. Morteiros instalados...morteirada...

A vala direita seguia por uma pequena planície de savana, muita vegetação com intervalos de capim, até ao
cume dum monte largo, a uns 1.500 metros de distância.

Como era de esperar, os guerrilheiros sentiram-se "sitiados" entre as granadas dilagramas do capitão S e os
morteiros da nossa equipa...

A guerrilha fugia para o monte, desaparecia na vegetação e voltava a aparecer. As granadas de morteiro caiam...
vários não voltaram a aparecer.

Tinham escolhido mal a pista de retirada...

Deixei o pelotão do Cosme com as viaturas e caminhei para a pequena clareira improvisada onde estavam os
feridos. Todos vivos! Alguns inconscientes...entrapados pelo sargento enfermeiro dos batedores. O major muito
queimado, cabeça entrapada, perda de massa encefálica, ao colo do Martins. Este mascarado de branco, nem o
reconheci.

Carros menos 3 virados para trás, feridos ao colo do pessoal, direcção Nampula hospital militar...

Jeep comigo, capitão S e Cosme para a pensão Arriscado. A messe de oficiais 2...messe 1 completa...Bom
clima em Nampula...
















































































































































































quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

NEGOMANO 1967

Em 1967 Negomano-Rovuma
1ª Imaginem, eu, tão novinho..., já instalado
2ª À chegada a Lisboa, eu, depois de carregar muita pedra para o "Castelo de S.Jorge"...
3ª Refugiados macondes: vindos da Tanzânia, Rovuma atravessado com água pelo peito (dos mais altos...), filhotes ao alto, já comeram, já beberam, exaustos, vão dormir...
Sem tiros, sem violências, nós Tugas somos assim...

sexta-feira, 17 de maio de 2013

UMA GUERRA NOS NOSSOS DIAS...



Em 1966 Portugal continuava a resistir à evolução histórica, defendendo as suas colónias dos movimentos de independência.

Era a guerra do Ultramar.

Vivendo o milhão de Portugueses nas colónias há séculos, em ambiente de supremacia branca, junto à África do Sul, também em ambiente de supremacia branca, aqui feroz mesmo com os não brancos, os nossos Portugueses sentiam que a situação seria eterna.

Apoiado nesta supremacia branca consolidada, Salazar e seus apoiantes erraram, por falta de consciência de que os direitos humanos têm que ser iguais para todos os humanos.

Salazar não preparou as colónias para a independência, não preparou os movimentos locais para se transformarem em partidos, não preparou as relações económicas futuras de Portugal com as colónias, isto é, os novos países.

Foi antes para a guerra, defendendo a ideia que Portugal era um país multirracial e pluricontinental. A serra mais alta de Portugal deixou de ser a nossa querida Serra da Estrela e passou a ser Tatamailau, em Timor…

Centenas de milhares de jovens como vocês, os mais jovens, foram chamados pelo Exército, treinados com dureza quanto baste, e enviados para a Guiné, Angola e Moçambique.

Já menos jovem quando embarquei para Moçambique.

Antes, 6 meses na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, com granadas a rebentar perto dos ouvidos, na tapada - curso de promoção a capitão (CPC).

Depois (longo...) estágio no CIOE - Centro de Instrução de Operações Especiais  (rangers), em Lamego.

Depois mais de 8 meses a formar o batalhão de Cavalaria 1923, em Estremoz (Cavalaria 3).

Dir-se-á que a esperteza não se ensina, mas se aprende. Todos pensam que são mais espertos, mas vendo os filmes da época da guerra da Argélia e do Vietname, filmes apoiados em consultores militares, fazem-me sorrir da ingenuidade dos seus intervenientes ocidentais.

Nós fomos mesmo mais espertos. Acresce a nossa inconsciência "estranha" perante o medo.

Em 1966, 2 de Agosto, terminei a licenciatura em Economia, no actual ISEG, em Lisboa. Casado, pai de dois rapazes, 1 e 3 anos de idade, trabalhava desde os 19 anos como contabilista.

Dias depois chegaram 3 postais, seguidos, de Mafra, Escola Prática de Infantaria: obrigado a apresentar-me no quartel 15 dias depois, como tenente miliciano. Tenho os postais guardados...

Passei a ganhar muito menos de metade do ordenado que tinha na vida civil. Tivemos que deixar a casa onde vivíamos, porque a renda comia o ordenado (soldo) todo. Fomos para casa dos meus sogros.

Formámos no cais da Matinha em 1967: um batalhão de Cavalaria (660 homens, o meu), para o Rovuma, um batalhão de Caçadores (Infantaria) para o Niassa e uma companhia de Polícia Militar para Nampula. Distribuição de maços de tabaco Paris pelas senhoras do Movimento Nacional Feminino: atendendo ao posto, 2 maços, alferes, um maço...

O meu pai, homem de vida dura, escondido ao longe, a chorar. Soube pela minha mãe mais tarde.

33 dias no paquete Niassa até Mocimboa da Praia. 

Antes, acostagem em Luanda. Linda, um espanto em Português. Brancos e não brancos nas esplanadas, amigos em cavaqueira. Emocionante, só em Angola...

Depois Lourenço Marques (actual Maputo). Desembarcámos e desfilámos até ao palácio do governador - 2.000 homens. Assobiados e apupados por milhares da população portuguesa. Os gritos: que não havia guerra nenhuma, que só íamos lá roubar, etc. Penso que defendiam uma independência "branca ", estilo África do Sul (da época...).

Chegados a Mocimboa da Praia, o Niassa não se aproximou de terra: desembarcámos ao longe para batelões da Marinha. Parecia que afinal havia guerra.

Recebidos os oficiais pelo tenente-coronel do batalhão local, informou-nos que na véspera tinha havido um ataque à bazucada a uma coluna nossa: um unimogue destruído, vários mortos, entre eles 3 furriéis milicianos. Havia mesmo guerra.

Recebemos o armamento: G3 novas, 5 carregadores com 20 balas cada, uma faca de mato, uma granada defensiva e uma ofensiva. Igual para todos.

No dia seguinte, partida para Mueda, "a terra da guerra" (como aqui viemos a ler nas paredes), escoltados por um pelotão em auto-metralhadoras Panhard (pequenos blindados rápidos) e 2 T6 a sobrevoarem-nos. Muitos tiros, alguns rebentamentos, saltar várias vezes das viaturas e algumas baixas (não identifiquei) até à chegada a Mueda. Valentia espantosa dos homens do pelotão Panhard, que nos escoltava..., incansáveis. Tínhamos saído de noite e chegámos já de noite. Comi e bebi ao todo uma lata de pêssego em calda.

Em Mueda o tenente-coronel do batalhão local ofereceu-nos jantar: massa com carne. Encontrei o meu amigo Deslandes, como eu capitão miliciano. Jantámos os dois a uma mesa (de pedra). Centenas de oficiais na sala. Estávamos a acabar de comer e começaram-se a ouvir grandes estrondos, rebentamentos que pareciam dentro do imóvel onde estávamos, as luzes a apagar, a casa e o miolo tudo a abanar. E foi a fuga da sala. O Deslandes não se calava, mesmo às escuras, tinha n histórias atrasadas de guerra por contar. Perguntei-lhe a certa altura porque é que nós não fugíamos como os outros. Não me ligou nenhuma e continuou.

No final desta guerra, o major do meu batalhão foi “apanhado” escondido debaixo duma dessas mesas…Muito gozado pelo capitão da bataria de Artilharia de Mueda…dizia-se que sobrinho de general...

No dia seguinte, partida para os nossos destinos: uma companhia para Nangade, duas companhias para Mocimboa do Rovuma (sede do batalhão) e uma companhia (a minha) para Negomano. Todas instaladas junto ao Rovuma, fronteira Norte.

O cabo condutor do nosso rebenta-minas (berlier de 5 toneladas com atrelado, carregados de sacos de areia que encabeçava a coluna), olho de lince, descobriu todas as minas anti-carro do percurso, antes de as pisar. Não levantámos as minas, como era das neps (normas de execução permanente). Rebentámo-las por simpatia, atando e fazendo explodir uma granada ofensiva. Já era eu que dava as ordens...

Negomano, junto aos rios Rovuma e Lugenda, era um aldeamento principalmente maconde e macua, com alguns milhares de pessoas. Centenas de cubatas. Entre duas longas fieiras de arame farpado, montado em altos cavaletes de madeira, ambas em círculo. Um cavalo de frisa como porta para o exterior, outro cavalo de frisa como porta para o interior, o aquartelamento.

Abertos durante o dia. Liberdade de movimentos para a população do aldeamento durante o dia. Sem controle pelo administrador de posto (funcionário português da administração ultramarina).

No interior do 1º círculo de arame farpado, duas casas e 3 abarracamentos de tijolo à vista, cobertos por chapas de zinco. Numa das casas, tipo colonial, o administrador de posto e família e os oficiais da companhia. A outra casa, muito modesta, com 2 andares, antigo posto da Guarda Fiscal, o comando da companhia. O meu gabinete no 1º andar. Nos abarracamentos os sargentos, os cabos e os soldados. Ainda uma cantina. Com muito poucos géneros, não havia mercado local.

À volta da 1ª fieira de arame farpado, por dentro, uma longa vala, estilo trincheira, para defesa de ataques do exterior. Ainda à volta, também por dentro, umas 10 guaritas em tijolo à vista, construídas a uns 4 metros de altura, com várias viseiras à volta. Subida por escada de madeira, que se recolhia para dentro da guarita, à noite. 3 soldados em cada guarita, à noite. Deviam dormir por turnos, mas ficavam sempre acordados...Tiros em todas as noites, sem excepção: vultos, leões ou "aparentados", luzes estranhas, e claro, algum medo. Companhia com 166 atiradores que se tornaram rapidamente exímios.

À volta do 2º círculo de arame farpado, por fora, fora do enfiamento do aldeamento, grandes zonas armadilhadas (com explosivos), por sectores. Explosores no meu quarto.

Era uma boa organização da defesa, dentro das possibilidades.

Os guerrilheiros da Frelimo, vindos das bases da Tanzânia, dali mesmo, do outro lado do Rovuma (que alguns de nós atravessámos com água pelo peito), atravessavam aos trezentos, fortemente armados. Em locais afastados, entre as 3 companhias operacionais.

Nunca vi, claro. Felizmente...Mas se aparecessem, não seria um Álamo (a): estávamos muito bem preparados (b).
G3 faz 100 tiros, 400, 500 guerrilhas seriam massacrados antes de atravessarem a primeira fieira de arame farpado.
Sei que é chocante fazer esta afirmação, mas era uma guerra e queriam-nos matar.

Sabíamos desses grandes grupos de intromissão pelo meu "serviço de informações": os cipaios ao serviço do administrador de posto, que este me disponibilizava. Isto porque os serviços de informações oficiais, a PIDE, não confiavam num capitão que era miliciano.



(a) Nota do Google (ajeitada por mim): os Texanos foram quase todos mortos em Álamo, mas acabaram por vencer definitivamente o general Mexicano e o seu exército na Batalha de San Jacinto.

(b) Claro que qualquer bataria de artilharia colocada na Tanzânia nos punha a fugir...Mas era pouco provável pelos efeitos internacionais. Também qualquer batalhão mecanizado que atravessasse o Rovuma nos punha a fugir...Mas a guerrilha era muito rudimentar...Embora tivessem armas mais modernas que as nossas...
A execrável supremacia branca era uma arma a nosso favor: "tropa oé, tropa maningue..."
E no meio dos meus sonos, até tinha formado um plano de fuga, local de instalação ... e reacção.